segunda-feira, julho 19, 2004

Encerrado para reparações

Devido a notórios curto-circuítos, este blog suspende a sua actividade.

sábado, julho 17, 2004

vai ver ao meu blog


o princípio, o meio, o fim,
se disse?
quando os olhos não queriam ver
quando a voz fere, enrouquece,
se disse?
..que .. não queria mais, que não lhe fazia falta..
não, já não gostava o suficiente,
...tinha desaparecido o desejo.
se disse?
...cara a cara?
... olhos nos olhos?
 
Não!
disse, vai ver ao meu blog.   


sexta-feira, julho 16, 2004

Viva a revolta

Viva a revolta,
viva enquanto for combustível
enquanto for muleta, cadeira de rodas e balão de óxigénio
enquanto for a única maneira de não nos debulharmos em lágrimas.
Enquanto impedir que nos tornemos patéticos.
Enquanto conseguir que o outro, o ser amado que parte, se transforme num ogre, cheio de fraquezas, leviandades e defeitos.
Viva a revolta
enquanto metadona, num programa de substituição.
Viva... até a desintoxicação terminar.

delete

Uma das maravilhas da técnica
Utilizar a tecla e zás, apaga-se tudo.
As palavras, os seus significados e até os significantes
Essa possibilidade está na ponta dos dedos, é como fechar os olhos
e ao abri-los a realidade é outra.
Boa noite e um queijo.
Adeus, até ao meu regresso.
Conheço-o de algum lado???
não estou a ver de onde...
..disse que se chamava...

utilizar a tecla e zás
o passado, o presente e o futu...zás

Adeus

“Adeus,
vou para não voltar
e onde quer que eu vá
sei que vou sózinha

tão sózinha, amor,
nem é bom falar
que não volto mais
desse meu caminho

Ah, pena eu não saber
como te contar
que o amor foi tanto
e no entanto...eu queria dizer

vem...
eu só sei dizer... vem
nem que seja só
para dizer adeus”

Pesadelo

Ele há alturas em que tudo corre mal.
Podemos estar meses sem partir um copo e de repente parece que as mãos ficam manteiga, e a loiça escorrega e atira-se para o chão, os eléctrodomésticos que nos acompanham há tanto tempo, entram em autogestão e exigem cuidados especializados e caros.
A empresa, que já estava numa fase complicada, decide pelo suicídio assistido.
E como se já não chegasse, as filhas querem fazer e ter o que não podemos alcançar...
-mas mãe, a elsa tem, a marta também...
e eu sem respostas, sem força, só me apetece fechar as persianas, deitar-me na cama e dormir, dormir, dormir.


quarta-feira, julho 14, 2004

Imperativo moral

Nos momentos em que amarro as mãos
amordaço a voz
gelo os sentidos
calo os risos
sepulto a alegria
mato o instinto
morro.
Nesses momentos, apoio-me em Kant.
Liberté, égalité, fraternité.

terça-feira, julho 13, 2004

cantares

“Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.

Nunca perseguí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse
de sol e grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse...
Nunca perseguí la gloria.

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar...

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar:
« Caminante no hay camino,
se hace camino al andar...»

golpe a golpe, verso a verso...

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar
« caminante no hay camino,
se hace camino al andar...»

Cuando el jilguero no puede cantar,
cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
«caminante no hay camino,
se hace camino al andar...»

golpe a golpe, verso a verso. “

Antonio Machado/ Juan Manuel Serrat

poema de amor

- Poema 20 -
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche esta estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".
El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

Pablo Neruda, “ 20 Poemas de Amor”

segunda-feira, julho 12, 2004

Cometa

Cometa
ou fogo de artíficio
ilumina o céu
reflectido nos olhos de quem o vê,
sobe até ao infinito e explode.
depois, sem parar, cai no chão,
e apaga os olhos.

O que os outros esperam de nós

O que os outros esperam de nós
Ponto de interrogação que pesa toneladas e que só começa a sentir-se quando duvidamos se queremos dar ou deixamos de querer, incondicionalmente, dar.
Esta ambivalência, esta capacidade de construir e propor novos mundos, e depois partir, emigrar, deixando para trás o companheiro de projecto, o realizado e aquilo que ficou por realizar.
Muitas vezes utilizamos, com mestria, a técnica de fazer com que o outro reaja, depois de o termos provocado q.b., reaja e provoque ele a ruptura, a ruptura que pretendiamos mas não tinhamos tido coragem de desencadear.
Afinal é melhor assim, pensamos, talvez o outro se sinta menos abandonado.
Enfim, no fundo, dentro de nós, sabemos que não é de todo assim, até porque uma ou outra vez, já estivemos do lado de lá, e nesses momentos sentimos, sem anestesia que valha, que fomos abandonados.
« Eu me sinto um tolo como um viajante
pela tua casa, pássaro sem asas, rei da cobardia,
e se guardo tanto essas emoções nessa caldeira fria
é que arde o medo onde o amor ardia
mansidão no peito guardando o respeito
que eu queria tanto derrubar de vez
para ser seu talvez… para ser seu talvez

mas o viajante é talvez cobarde
ou talvez seja tarde pra gritar que arde
com o maior ardor
a paixão contida retraida e nua
rolando na sala ao te ver deitada,
ao te ver calada, ao te ver nuada…

…talvez esperando desse viajante
algo que ele espera também receber
e quebrar as cercas
com que a gente insiste
em se defender. »

Ney Matogrosso.

domingo, julho 11, 2004

a fotografia

bateu a porta e foi-se embora.
já há muito tempo que estava para vir buscar as coisas dele e pronto foi hoje.
no meio dos escolhos, dos cacos e dos buracos... lá estava aquela fotografia, uns olhos tristes de uma menina de sete anos, parecia que antecipavam todos os fins, todas as dores, toda a impotência,... aqueles olhos desiludidos, quase lúcidos, parece que antecipavam, há trinta anos.

à espera da próxima peça

nem tudo o que se faz tem aplausos, muitas vezes nem chegamos a perceber o que afinal se passou entre o ínicio e o fim da "peça", quais foram as deixas que não seguimos, o ponto tentou, talvez, avisar-nos, mas não demos a devida atenção.
Agora, que o espectáculo acabou e as luzes foram apagadas, depois de lavar a tinta que nos recriava, mais belos, luminosos, intensos, depois de arrumar os adereços, ficamos nus,no meio do palco,jurando que da próxima vez daremos mais atenção, às deixas...ao ponto.
...nós, nus, bem no meio do palco... à espera da próxima peça.

pouso as palavras no chão

" Farto de voar, pouso as palavras no chão,
entro no mar, sinto o sal de mão em mão,
trago um corpo na vida espetado,
só suspenso por balas de um lado
e do outro a cair...a cair no alçapão."
Sérgio Godinho, Sobreviventes.

sábado, julho 10, 2004

sr. presidente, vou desertar.

Oh mãe porque é que estás tão triste? perguntam-me as minhas filhas... e eu nem sei como é que lhes vou explicar, doi-me ter de contar que o Sampaio, o nosso presidente de esquerda, aquele que sendo o mais alto órgão de soberania do estado nos representava de uma forma inteligente, sensível e "upgrading" da vida política portuguesa,... esse presidente tinha decidido que os portugueses tinham que continuar a aguentar as políticas a que têm vindo a sobreviver, mal.
Sr presidente esta sua posição fez-me lembrar aquela canção francesa dos anos 50, desses anos que tenho a certeza que se lembra..., lembrou-me a canção em que um jovem envia uma carta aberta ao presidente françês dizendo-lhe que não quer partir para a guerra, que o presidente não tem o direito de dispor da vida dele, e que por isso vai desertar.
Sr. presidente, depois da sua atitude, da sua decisão, deixo de fazer parte dos seus, vou desertar.

aquele homem era o presidente de todos os portugueses e agora é de quem?

Desta lamentável decisão do J. Sampaio e de todas as suas implicações políticas, sociais e económicas, ascende, numa atitude ética rara, o secretário geral do PS, Ferro Rodrigues.
A decisão de, perante a atitude de Sampaio, apresentar a demissão de secretário geral do seu partido e de conselheiro do conselho de estado, confirma a qualidade, a integridade e a exigência de um homem, de um político.
Se ontem, após o comunicado do presidente senti, bruscamente, a surpresa da orfandade política, ao ouvir Ferro Rodrigues respirei fundo,a dignidade e a coerência não morreram, ainda existe esperança.
A luta continua!

sexta-feira, julho 09, 2004

Quarentena


Gostava de poder contagiar-te definitivamente.
Ir de quarentena contigo sem paleativos, genéricos ou medicamentos de marca.
Usar todos os minutos nas suas sessenta pulsações, todas as horas sem fim.
Sentir-te, suspeitar o teu olhar, instintivamente arquear o dorso, os rins, e, sem pudor demonstrar o meu desejo, responder às tuas mãos, à tua pele.

Não tenho pressa, tenho fome.

terça-feira, julho 06, 2004

“ Os Cavalos Também se Abatem”.

Quando, ao fim do dia, volto para casa no chocalhar colectivo do autocarro, dou por mim a olhar à minha volta para as caras cansadas, irritadas e fechadas, olhos que acusam tudo e todos, rugas fundas, cravadas na pele, cicatrizes sem remissão.
Quando entra alguém feliz, provocadoramente feliz, dá-se um estranho conluio, como que um caso de telepatia colectiva, entre todos os restantes, ...que atrevimento – pensam – como é que se pode ser feliz...- vê-se logo que não trabalha – se tivesse a minha vida...- rematam todos em cerebral uníssono.
O autocarro quase a chegar à minha paragem, o meu turno de hoje chegou ao fim, amanhã mais uma volta, mais uma viagem.
É nesses momentos que me sinto na pista de dança do filme “ Os Cavalos Também se Abatem”.

sabes assobiar?

“Se alguma vez precisares de mim, é só assobiar... sabes assobiar?
... basta juntar os lábios e soprar.”
Disse a sensualissima Lauren Bacall ao H. Bogarth.

segunda-feira, julho 05, 2004

Não mandem flores a Miss Blandish

O filme era negro, americano mas negro, uma tomada de imagem crua, desgraçada.
a jovem de boas famílias, pouco bela, mas cheia de dote.
Fim de festa, a jovem é dominada e raptada por um grupo de foras da lei.
Grupo, dominado por uma matriarca, constituido por um tio alcoólico, um irmão virílmente imbecíl, e o mais novo, disléxico, disfuncional, com um ligeiro atraso na fala.
a jovem começa por reclamar, exigir, desprezar, mas com o passar do tempo começa a viver essa realidade, e a encontrar cumplicidades.
É amada pelo jovem disfuncional, como vitória e como mulher,depois de muito fugir, ela entrega-se, sem nunca dizer que ama, sem nunca dar...
O cerco aperta-se, o grupo em fuga divide-se, a jovem passa uma última noite com o seu homem/raptor num palheiro, é o fim - diz ele - vai-te embora, não tenho nada que possas querer...
Chega a polícia, chega o pai dela, avisos pelo megafone, ao primeiro gesto o jovem é ferido, ela sai em sua defesa tapando com o seu corpo o corpo dele, certeiros, moralistas, os tiros reduzem o rapaz a zero. Morto!
A jovem depois de demonstrar a sua dor, a sua imensa dor, dirige-se ao pai, procurando o reencontro, o colo,...o pai vira a cara.

domingo, julho 04, 2004

O meu irmão mais velho

O meu irmão mais velho era o mais inteligente de todos, dizia-nos o meu pai, a mãe dele, a minha mãe, os nossos amigos, ...toda a gente.
eu nem sequer duvidava, ele era o meu herói.
Jogava xadrez como ninguém, falava de política, filosofia,literatura, de geografia, história e música, tinha uma timidez sedutora, andava nas pontas dos dedos dos pés, sobe e desce, era belo.
O meu irmão mais velho soube, sem dureza, levar-me a resolver a minha admiração incestuosa, ensinou-me as suas falhas, os seus limites, e mostrou-me que os heróis, os nossos heróis, somos nós que os criamos e que durante a minha vida iria, com certeza,construir outros.
Mano, obrigada por todos os heróis que fui sabendo construir.

voltaria a ser tão bom?

Sentada na escrivaninha, que era da minha avó, escrivaninha que ocupada, agora, pelas minhas folhas escrivinhadas, pelas contas pagas e a pagar, pelos livros que me servem de sebentas, de memória. Escrivaninha, dizia eu, que ainda mantém a delicadeza, a sensibilidade da minha avó, gavetas e gavetinhas que organizam, instintivamente, os assuntos, as importâncias e as prioridades dos papéis que recolhem em si. Colada na parede está a fotografia da praia da minha infância, cristalizada,como era e nunca mais voltará a ser, nunca mais as fogueiras à noite, as violas, as cantorias noites afora, o pão denso cheio de manteiga e mais o que houvesse, os banhos nocturnos, numa fraternidade alargada, as pescarias partilhadas e festejadas, embora a maioria preferisse carne, a caça aos gambuzinos que, embora receada, era vivida por todos com amizade e até com algumas demonstrações de orgulho dos mais velhos pela coragem dos mais novos.
Não sei porquê mas hoje sinto na garganta o mesmo nó que sentia no penúltimo dia de férias, ainda faltava tanto para as férias do ano seguinte, estariamos lá todos da próxima vez,voltaria a ser tão bom?

"O Lobo das Estepes"

" Lobo das estepes sou, errando, errando,
em volta da neve, na vastidão do mundo,
o corvo na bétula abre as asas para voar
mas nem lebre ou corça vejo para amar!
As corças trazem-me tão enamorado,
uma que fosse, não mais, desejo ver!
Tomá-la-ia nas mãos, nos dentes,
oh! Maravilha sem fim, igual não pode haver.
Amá-la-ia de todo o coração,
a sua carne delicada seria meu alimento,
o seu sangue vermelho vivo minha bebida
e depois ulularia solitário pela noite adentro.
Uma lebre só, mais não queria,
como é doce a sua carne quente na noite fria
ah! Ter-se-ão apartado para longe de mim
as coisas que dão encanto e sabor à vida?
O pêlo na minha cauda vai sendo grisalho
os olhos também já não me deixam ver bem
Já há muito morreu a minha esposa amada.
E agora, só e errante, com corças sonho,
ando só e errante e com lebres sonho,
ouço o vento soprar na noite de inverno,
de neve sacio a minha goela ardente,
e a minha pobre alma ao diabo entrego."

Hermann Hesse, O Lobo das Estepes,Porto, Edições Afrontamento
1982,pp:72, Porto.

sexta-feira, julho 02, 2004

morreu a menina, a narradora

Do mar, da floresta, de bronze...
sophia, sabedoria, jardineira, cuidadosa e atenta, da língua portuguesa.
Tradutora e intérprete de anões, de animais, de filhos únicos, de amigos, de árvores, e,... e de flores.
neste momento, sophia, só consigo pensar nas flores que me apresentaste e ensinaste, flores belas, orgulhosas, petulantes, snobs,simples, discretas,envergonhadas e efémeras.
Sophia, não acredito em deus mas acredito no teu jardim.

Marlon Brando

...morreu deixando-nos eternamente no cais, no meio do lodo, a desejar um eléctrico.

Geometria descritiva

Corpos que se interceptam
tangências tentadas, quadrados de hipotenusas
que se atrevem a não cumprir o quadrado dos catetos.
Triângulos eternos com inúmeros ângulos.
Sólidos que se liquefazem, que explodem em mil e uma fantasias.
Formas gasosas como nuvens rodopiam sem parar.

Todas as noites naquela pista os corpos organizam-se no espaço.

As duas filhas únicas

A mais velha boceja o fastio dos seus treze anos, “que seca...”
Está ainda a experimentar o corpo, a experimentar o poder, a experimentar-se. Luta com todas as forças para ser considerada pessoa grande, para conquistar a autonomia em relação à toca, mas enrosca-se ao lado da mãe a pedir os mimos que tem medo de perder.
A mais nova sente-se ultrapassada, sente a irmã noutro degrau, noutra onda “ Não me chames bébé!” ou “ Pensas que és minha mãe”, mal ela sabe que ao dizer isto a mais velha rejubila no seu poder de primogénita, nesses momentos, a mais nova, ocupa o lugar no colo da mãe, esticando o mais possível a sua condição de mais nova, de pequenina, menina da mamã, que os seus 11 anos parecem contradizer.
Minhas duas filhas únicas, eu tenho mimos e colo, para cada uma de vocês, até sempre.

quinta-feira, julho 01, 2004

O baloiço

O baloiço para cima e para baixo, cada vez mais alto, e tu minha filha rias incrédula, oh mãe...sabes andar de baloiço, as mães não podem andar...
minha querida filha, as mães sabem andar de baloiço, de trotinete, de triciclo, sabem jogar ao macaquinho do chinês, ao mata, já treinaram o elástico, saltaram à corda, decoraram as cantilenas,sujaram a roupa a comer gelados, esfolaram joelhos e, até, choraram com medo dos cães grandes...
às vezes, às escondidas, ainda choram.

... quando te penso

A terra treme e fende
O vulcão é Pompeia
O dilúvio biblico
As ondas Tsunami
As marés vivas
Os barcos titanic
As bombas hiroshima
Os rios amazonas
Os sentidos verso e inverso
Os verbos futuro mais que perfeito
Os nomes de todas as coisas
As palavras em torrente
As imagens super8,9,10


... quando te penso.

Respirarei sem oxigénio?

Será que tenho de pedir desculpa?
Azedar os sentidos
Entristecer o riso
Fugir de mim.

Terei de falar duramente?
Tapar os ouvidos
Cegar os meus olhos
Fechar-me a sete chaves

Poderei fingir indiferença?
Esquecer as tuas mãos
Os códigos de acesso
A tua password

Respirarei sem oxigénio?

...da Bayer

Pedir ao sol para não brilhar
ao gelo para não derreter
ao dia para não seguir a noite
ao cão para não ser amigo do homem,
o melhor.

Dizer que o mel é amargo
que o mar é seco
que os peixes vivem no ar
que a lua é queijo esburacado,
suiço.

Afirmar que Noé era aviador,
Ulisses, neurocirurgião,
Que o Patinhas era pobre
Que não se dançam mornas,
escaldantes.

Jurar que a terra é quadrada,
que o deserto é líquido,
o vento imóvel,
a verdade uma única,
absoluta.

Tudo é mais verosímil,
Inquestionável
da Bayer
do que dizer que não te amo.